domingo, 2 de maio de 2010

"Fehngebiet", terras conquistadas com muito trabalho


Há muitos moinhos bem preservados nesta região da Alemanha.
Há umas semanas atrás aproveitei um dia muito bonito com sol, e fiz-me à estrada. Não foi preciso ir muito longe, pois vivo numa região chamada Fehngebiet, onde os canais e moinhos abundam para conseguir algumas fotografias muito interessantes (ver álbum aqui). 
Fehngebiet é uma palavra composta pela aglutinação de Fehn + Gebiet (região; zona), que significa região Podemos dizer que Fehn é uma planície rica em água (paul ou pântano) com um habitat natural de muitas espécies de animais e plantas, algumas raras até. Também característicos são os canais (Fehnkanäle), as povoações (Fehnsiedlungen) e as pontes levadiças (Klappbrücke) sobre os canais.

 Um canal com uma ponte levadiça em Ostgrossefehn

(Continua... clicar em "Ler Mais")



A ideia ou invenção da Fehnkultur (modo de cultivo das zonas pantanosas) é tida como proveniente dos Países Baixos. No entanto as palavras feen e veen (como se diz na Frísia de Leste) já existiam anteriormente na Alemanha. Por exemplo, a localidade onde vivemos chama-se Veenhusen, cujo significado literal é casario do Veen (ou Fehn). A existência da aldeia de Veenhusen remonta ao século XII. Há menções da povoação nos registos paroquiais da Catedral de Münster em 1435.
Esta é uma região originalmente constituída por pântanos ricos em turfa, chamados Moor.
Ao longo da história, com especial destaque a partir do século XVII,  esses pântanos das terras baixas (Países Baixos, Norte da Alemanha, e até da Bélgica) foram “colonizados” com a criação de casarios localizados junto dos canais navegáveis. Os canais maiores (Hauptwieke) serviram, em primeiro lugar para a drenagem dos pântanos, mas também para o transporte da turfa (extraída desses pântanos) por embarcações e ainda para fornecimento de materiais de construção, fertilizantes, etc. As embarcações traziam no regresso os sedimentos dos rios e com isso, a pouco e pouco, os pântanos drenados podiam ser utilizados para agricultura.

 Gravura de 1873 que mostra como eram transformados os pântanos em campos de cultivo
(obtido na internet)

A turfa preta eram vendida (e usada) pelos colonos como combustível para aquecimento das casas. Depois as cinzas dessa queima eram aproveitadas como fertilizante dos terrenos. Além disso a turfa seca também era aproveitada como material de construção.
A partir do Hauptwieke saíam outros canais secundários (ver imagem no fim). Em ambos os lados dos canais, os colonos construíram casas simples. As povoações assim estabelecidas receberam a designação de Moorsiedlungen ou Fehnsiedlungen, com a designação mais generalizada de Fehn.
Portanto a designação de Moor tem a ver com as terras, pântanos ou o que resta deles, e Fehn refere-se às povoações aí estabelecidas, termo importado dos holandeses.
Alguns Fehn tomaram os nomes das primeiras famílias que colonizaram essas regiões:
Warsingsfehn, Beningafehn, Jehringsfehn (todas povoações aqui à nossa volta), e muitas outras.

Para ver o meu álbum com moinhos, clique aqui.
Para ver um álbum mais antigo com imagens da paisagem da região (Veenhusen), clicar aqui.

Este mapa de bolso mostra melhor do que o Google Earth e realça o emaranhado de canais à nossa volta.

3 comentários:

  1. Luís, muito bom post, extremamente interessante.

    Mas que pode fazer um Portugues em Veenhusen?

    Abraços,
    Pedro

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  2. Ora cá está mais uma apontamento de reportagem de se lhe tirar o chapéu e, como de costume, bem recheado de imagens para complementar a curiosidade de quem, atentamente, se debruça sobre o que muito bem escreves.

    Está quase a fazer um ano que por aí tive a oportunidade de deambular (foram 3 dias, mas muito bons) e este artigo serve que nem luva para matar saudades. Não só a paisagem continua uma bênção para a vista como consola ver tudo continua bem aproveitado e excelentemente tratado.

    No que às fotografias diz respeito há que destacar algumas e encaminhá-las para o Flickr...

    Abraço,

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  3. Meus caros:
    Obrigado pelos comentários.
    Fico especialmente satisfeito por saber que o meu postal foi apreciado.
    Pedro, penso que a última parte do comentário do meu amigo Yako responderá em boa parte à sua questão. :-)
    Há alguns anos quando visitei pela primeira vez esta região eu disse:"Aqui não me importava de viver!". E assim foi :-)
    Um abraço.

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